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Archive for the ‘Mestres’ Category

Sê como o Sol para a Graça e a Piedade.

Sê como a noite para encobrir os defeitos alheios.

Sê como uma corrente de água para a generosidade.

Sê como a morte para o ódio e a ira.

Sê como a Terra para a modéstia.

Aparece tal como és.

Sê tal como pareces.


Se pudesses libertar-te, por uma vez, te ti mesmo,

o segredo dos segredos se abriria para ti.

O rosto do desconhecido, oculto além do universo,

apareceria no espelho da tua percepção.


Na realidade, tua alma e a minha são o mesmo.

Aparecemos e desaparecemos um com o outro.

Este é o verdadeiro significado das nossas relações.

Entre nós, já não há nem tu, nem eu.


O vale é diferente, acima das religiões e cultos.

Aqui, em silêncio, baixa a cabeça.

Funde-te na maravilha de Deus.

Aqui não há lugar para religiões nem cultos.


Há uma Alma dentro de tua Alma. Busca essa Alma.

Há uma jóia na montanha do corpo. Busca a mina desta jóia.

Oh, sufi, que passa!

Busca dentro, se podes, e não fora.


No amor, não há alto nem baixo,

má conduta nem boa,

nem dirigente, nem seguidor, nem devoto,

só há indiferença, tolerância e entrega.




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Angel Touch - Lylias

Ela entrou, deitou-se no divã e disse: “Acho que estou ficando louca”. Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. “Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões _é uma alegria! Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões… Agora, tudo o que vejo me causa espanto.”

cebola

Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as “Odes Elementales”, de Pablo Neruda. Procurei a “Ode à Cebola” e lhe disse: “Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: ‘Rosa de água com escamas de cristal’. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta… Os poetas ensinam a ver”.

ruby eye - ftourini

Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.

bokeh eye - ftourini

William Blake sabia disso e afirmou: “A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê”. Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.

Deadly red - ftourini

Adélia Prado disse: “Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra”. Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.

silver moon - ftourini

Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. “Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios”, escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada “satori”, a abertura do “terceiro olho”. Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: “Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram”.

Gold eye - ftourini

Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, “seus olhos se abriram”. Vinícius de Moraes adota o mesmo mote em “Operário em Construção”: “De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa _garrafa, prato, facão_ era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção”.

Peacock eye in love - ftourini

A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam… Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.

Frozen Star - ftourini

Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: “A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas”.

rainbow eye -ftourini

Por isso _porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver_ eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar “olhos vagabundos”…

Eye love d you -ftourini

Rubem Alves: A complicada arte de ver

Rubem Alves, 71, educador, escritor. Livros novos para crianças e adultos-crianças: “Os Três Reis” (Loyola) e “Caindo na Real: Cinderela e Chapeuzinho Vermelho para o Tempo Atual” (Papirus).

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The Music off Silence (Jean-Paul Avisse)

Nessun Dorma
(Giacomo Puccini)


Il Principe:

Nessun dorma!… Nessun dorma!…
Tu pure, o Principessa,
nella tua fredda stanza
guardi le stelle che tremano
damore e di speranza!

Ma il mio mistero è chiuso in me,
il nome mio nessun saprà!
No, no, sulla tua bocca lo dirò,
quando la luce splenderà!

Ed il mio bacio scoglierà
il silenzio che ti fa mia!

Coro donne:
Il nome suo nessun saprà…
E noi dovrem ahimè, morir, morir!…

Il Principe:
Dilegua, o notte! tramontate, stelle!
Tramontate, stelle! Allalba vincerò!
Vinceró!
Vinceró!



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Nessun Dorma
(Tradução)

Ninguém durma

Que ninguém durma!
Que ninguém durma!
Você também, ó Princesa
Em seu quarto frio, olhe as estrelas
Tremendo de amor e de esperança

Mas meu mistério está fechado em mim
O meu nome ninguém saberá
Não, não, só o direi na sua boca
Quando a luz brilhar

E o meu beijo quebrará
O silêncio que te faz minha

[Coro]
O seu nome ninguém saberá
E nós teremos, oh!, que morrer, morrer

Parta, oh noite
Esvaneçam, estrelas
Esvaneçam, estrelas
Ao amanhecer eu vencerei!
Vencerei! Vencerei!

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Luciano Pavarotti

Até logo querido Pavarotti!

E que ele se torne parte da inspiração e da luz da

música que sempre expressou…

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I

EU TENHO dentro d’alma o meu segredo
Guardado como a pérola do mar;
Oculto ao mundo como a flor silvestre
Lá no vale escondida a vicejar.

Eu guardo-o no meu peito… É meu tesouro,
Meu único tesouro desta vida.
— Sonho da fantasia — flor efêmera
Uma nuvem, talvez, no céu perdida …

Mas que importa? É uma crença de minha alma
— Gota de orvalho d’alva da existência
Última flor, que vive aos raios mornos
Do sol de amor na quadra da inocência.

Só, quando a terra dorme solitária
E ergue-se à meia-noite, branca, a lua,
E a brisa geme cantos de tristeza
Na rama — do pinheiro — que flutua;

E quando — o orvalho pende do arvoredo
Que se debruça p’ra beijar o rio,
E as estrelas no céu cintilam lânguidas
— Pérolas soltas de um colar sem fio;

Então eu vou sentar-me sobre a relva,
Eu vou sonhar meus sonhos ao relento,
E só conto o segredo de minh’alma
Das horas mortas ao tristonho vento.

 

II


Castro Alves


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Gosto da palavra “fornida”. É uma palavra que diz tudo o que quer dizer. Se você lê que uma mulher é “bem fornida”, sabe exatamente como ela é. Não gorda mas cheia, roliça, carnuda. E quente. Talvez seja a semelhança com “forno”. Talvez seja apenas o tipo de mente que eu tenho. 

 

Não posso ver a palavra “lascívia” sem pensar numa mulher, não fornida mas magra e comprida. Lascívia, imperatriz de Cântaro, filha de Pundonor. Imagino-a atraindo todos os jovens do reino para a cama real, decapitando os incapazes pelo fracasso e os capazes pela ousadia.
Um dia chega a Cântaro um jovem trovador, Lipídio de Albornoz. Ele cruza a Ponte de Safena e entra na cidade montado no seu cavalo Escarcéu. Avista uma mulher vestindo uma bandalheira preta que lhe lança um olhar cheio de betume e cabriolé. Segue-a através dos becos de Cântaro até um sumário – uma espécie de jardim enclausurado -, onde ela deixa cair a bandalheira. É Lascívia. Ela sobe por um escrutínio, pequena escada estreita, e desaparece por uma porciúncula. Lipídio a segue. Vê-se num longo conluio que leva a uma prótese entreaberta. Ele entra. Lascívia está sentada num trunfo em frente ao seu pinochet, penteando-se. Lipídio, que sempre carrega consigo um fanfarrão (instrumento primitivo de sete cordas), começa a cantar uma balada. Lascívia bate palmas e chama:
– Cisterna! Vanglória!
São suas escravas que vêm prepará-la para os ritos do amor. Lipídio desfaz-se de suas roupas – o sátrapa, o lúmpen, os dois fátuos – até ficar só de reles. Dirige-se para a cama cantando uma antiga minarete. Lascívia diz:
– Cala-te, sândalo. Quero sentir o seu vespúcio junto ao meu passe-partout.
Atrás de uma cortina, Muxoxo, o algoz, prepara seu longo cadastro para cortar a cabeça do trovador.
A história só não acaba mal porque o cavalo de Lipídio, Escarcéu, espia pela janela na hora em que Muxoxo vai decapitar seu dono, no momento entregue aos sassafrás, e dá o alarme. Lipídio pula da cama, veste seu reles rapidamente e sai pela janela, onde Escarcéu o espera.
Lascívia manda levantarem a Ponte de Safena, mas tarde demais. Lipídio e Escarcéu já galopam por motins e valiums, longe da vingança de Lascívia.

 

“Falácia” é um animal multiforme que nunca está onde parece estar. Um dia um viajante chamado Pseudônimo (não é o seu verdadeiro nome) chega à casa de um criador de falácias, Otorrino. Comenta que os negócios de Otorrino devem estar indo muito bem, pois seus campos estão cheios de falácias. Mas Otorrino não parece muito contente. Lamenta-se:
– As falácias nunca estão onde parecem estar. Se elas parecem estar no meu campo é porque estão em outro lugar.
E chora:
– Todos os dias, de manhã, eu e minha mulher, Bazófia, saímos pelos campos a contar falácias. E cada dia há mais falácias no meu campo. Quer dizer, cada dia eu acordo mais pobre, pois são mais falácias que eu não tenho.
– Lhe faço uma proposta – disse Pseudônimo. – Compro todas as falácias do seu campo e pago um pinote por cada uma.
– Um pinote por cada uma? – disse Otorrino, mal conseguindo disfarçar o seu entusiasmo. – Eu devo não ter umas cinco mil falácias.
– Pois pago cinco mil pinotes e levo todas as falácias que você não tem.
– Feito.
Otorrino e Bazófia arrebanharam as cinco mil falácias para Pseudônimo. Este abre o seu comichão e começa a tirar pinotes invisíveis e colocá-los na palma da mão estendida de Otorrino.
– Não estou entendendo – diz Otorrino. – Onde estão os pinotes?
– Os pinotes são como as falácias – explica Pseudônimo. – Nunca estão onde parecem estar. Você está vendo algum pinote na sua mão?
– Nenhum.
– É sinal de que eles estão aí. Não deixe cair.
E Pseudônimo seguiu viagem com cinco mil falácias, que vendeu para um frigorífico inglês, o Filho and Sons. Otorrino acordou no outro dia e olhou com satisfação para o seu campo vazio. Abriu o besunto, uma espécie de cofre, e olhou os pinotes que pareciam não estar ali!
Na cozinha, Bazófia botava veneno no seu pirão.

 

“Lorota”, para mim, é uma manicura gorda. É explorada pelo namorado, Falcatrua. Vivem juntos num pitéu, um apartamento pequeno. Um dia batem na porta. É Martelo, o inspetor italiano.
– Dove está il tuo megano?
– Meu quê?
– Il fistulado del tuo matagoso umbráculo.
– O Falcatrua? Está trabalhando.
– Sei. Com sua tragada de perônios. Magarefe, Barroco, Cantochão e Acepipe. Conheço bem o quintal. São uns melindres de marca maior.
– Que foi que o Falcatrua fez?
– Está vendendo falácia inglesa enlatada.
– E daí?
– Daí que dentro da lata não tem nada. Parco manolo! 

Este texto está no livro “O analista de Bagé.”

 

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Consulto o Phtah-Hotep. Leio o obsoleto
Rig-Veda
. E, ante obras tais, me não consolo…
O Inconsciente me assombra e eu nêle tolo

Com a eólica fúria do harmatã inquieto!
Assisto agora à morte de um inseto!…
Ah! todos os fenômenos do solo

Parecem realizar de pólo a pólo
O ideal de Anaximandro de Mileto!
No hierático areopago heterogêneo
Das idéas, percorro como um gênio

Desde a alma de
Haeckel à alma cenobial!…
Rasgo dos mundos o velário espesso;

E em tudo, igual a
Goethe, reconheço
O império da substância universal!


Augusto dos Anjos

Vocabulário:

eólica:
-relativo à Eólida ou à sua língua;
-natural ou habitante da Eólida.
-de Eolo, deus dos ventos.

harmatã:
ventos carregados de areia, característicos da região do Oeste da África.

hierático:
-relativo às coisas sagradas;
-relativo aos sacerdotes;
-que tem as formas de uma tradição litúrgica;
-sagrado, religioso.
-escrita -a: traçado cursivo da escrita hieroglífica dos Egípcios correspondendo a uma simplificação.

cenobial:
referente à comunidade de ermitãos, referente a ermitão, cenobiótico

velário:
toldo para cobrir os circos e os teatros, por causa do sol e da chuva.

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Venus Disarming Cupid. Francois Boucher, 1751.

Tudo cura o tempo,
tudo faz esquecer,
tudo gasta,
tudo digere,
tudo acaba.

Atreve-se o tempo a colunas de mármore
quanto mais a corações de cera!

São as feições como as vidas,
que não há mais certo sinal
de haverem de durar pouco,
que terem durado muito.

São como as linhas,
que partem do centro para a circunferência,
que quanto mais continuadas,
tanto menos unidas.

Por isto os antigos sabiamente pintaram
o amor menino;
porque não há amor tão robusto,
que chegue a ser velho.

De todos os instrumentos
com que o armou a natureza,
o desarma o tempo.
Afrouxa-lhe o arco,
com que já não atira;
embota-lhe as setas,
com que já não fere;
abre-lhe os olhos,
com que vê o que não via;
e faz-lhe crescer as asas,
com que voa e foge.

A razão natural de toda esta diferença
é,
porque o tempo
tira a novidade às cousas:
descobre-lhe os defeitos,
enfastia-lhe o gosto,
e bastam que sejam usadas
para não serem as mesmas.

Gasta-se o ferro com o uso
quanto mais o amor!
O mesmo amar é causa de não amar,
e o ter amado muito,
de amar menos.

 

Antônio Vieira

www.portaldavaca.com.br

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