Lembrou que eu havia feito perguntas sobre Greta, mas como não podia explicar naquele momento, por estar cuidando de outros tantos assuntos, foi evasivo e não nos contou tudo, pediu que esquecêssemos o assunto até algum outro momento oportuno, isto despertara nossa curiosidade, guiada pela nossa ingenuidade.
A discussão começou a ficar mais tensa quando argumentei, tomando por base os preceitos franciscanos de fraternidade, bondade, acolhida sem discriminação ou preconceito, o que havia de tão errado com nossa atitude eu não conseguia enxergar.
O Abade explicou-nos que havia muito mais a saber, mas que mesmo sem saber devíamos ter obediência e confiança na Ordem. Que fizemos julgamentos e tomamos atitudes sozinhos, mas como fazíamos parte da Ordem todos sofreriam as consequências por termos sido inconsequentes, o trabalho de anos poderia se perder se a confiança da comunidade tivesse sido abalada com a situação, reconquistar esta confiança seria mais árduo agora do que foi no passado. Nós dois tendo sido vistos com aquela mulher era uma situação delicada do qual não fazíamos ideia, tal coisa poderia ser tomada como a influência do demônio em nossa congregação.
Tentei argumentar, ela era uma boa pessoa, mas ele calou-me com suas palavras: -Todo ser é livre e ela escolheu não aceitar ajuda ou qualquer envolvimento conosco ou com a comunidade, simplesmente respeitamos sua escolha, se as coisas mudaram, tomaram um rumo impróprio que podem ter drásticas consequências.
Tínhamos acabado de sair para nossos alojamentos quando um dos monges foi rapidamente falar com o Abade. Relatou a confusão que estava acontecendo. O abade foi falar com os lideres, lá chegando o número de pessoas havia aumentado e mais chegavam. Estavam nervosos. Foi tudo tão repentino que o Abade não teve tempo de preparar qualquer argumentação. Tentava lhes falar pra terem calma, que havia ocorrido um mal entendido. Entre eles alguns que só queriam incitar as pessoas a revolta.
Não houve como ter diálogo, o nervosismo superava a razão, alguns lideres disseram que tomariam providencias e saíram do mosteiro sem dar chance de qualquer explicação, seguidos por varias pessoas. Alguns ficaram e tentaram entender o acontecido, estavam mais abertos ao diálogo. O Abade lhes contou nossa historia e nossas intenções, eles ficaram mais calmos ao perceber que era um caso isolado, que não era com o consentimento da ordem que havíamos feito contato com Greta, conversaram por algum tempo tomando decisões e depois foram para a aldeia tentar falar ao restante que havia saído antes.
Após relatar o ocorrido o Abade nos explicou que teríamos que assumir a responsabilidade sozinhos, que teríamos o apoio de todos os irmãos mas deveríamos nos retratar publicamente perante toda a congregação e a comunidade, foi o que os lideres exigiram para que o vinculo de confiança se mantivesse. As consequências já estavam aparecendo, um grupo de monges do nossa congregação, havia saído para cumprir a rotina de visita aos doentes, não foram recebidos pela maioria.
O Abade discordou, mas vendo que Miguel não parecia em condições de enfrentar a situação, aceitou que somente eu comparecesse a reunião que havia sido marcada na igreja e que aconteceria dali a duas horas, com toda a congregação e a comunidade. Orientou-nos para que eu fosse para o meu quarto orar e meditar durante a espera e Miguel fosse encontrar um outro Frei para receber orientação, ele estava mudo, parecia transtornado.
Antes de sair fiz uma última tentativa de falar ao Abade se não seria melhor falar com greta, trazê-la a comunidade, tentar mudar esta situação, explicar que ela não queria fazer mal a ninguém, apenas ajudar. O Abade ficou alterado, falou alto que eu estava proibido de retomar qualquer envolvimento com àquela mulher, de falar no assunto, se eu desobedecesse seria transferido na melhor das hipóteses. Por ultimo me falou, se ela se arrependera de seus crimes, que Deus a perdoe, pois ele já havia compreendido que os homens não eram capazes de tal.
Perdi a noção do tempo, absorto que estava em meus pensamentos e sentimentos em conflito. Orava pedindo orientação, compreensão, chorei muitas lágrimas de angustia e medo, não saberia dizer quantas horas se passaram, mas me pareciam bem mais de duas, quando de repente a porta se abriu abruptamente e por ela entrou Miguel ofegante, de olhos arregalados e feições transtornadas, agarrou-se fortemente a meus braços estendidos.
Tentava respirar e falar, contou que estava no jardim do patio da igreja, tinha sido orientado a não ir na reunião, estava abalado demais, mas ouviu quando a multidão chegou para a reunião uma hora mais tarde do combinado, ele achou até que já havia acontecido e estava tudo resolvido, mas ouviu as vozes alteradas e o que diziam.
Miguel começou a sacudir-me e falava aos prantos: -Francisco o pior aconteceu eles foram até ela, o outro grupo, eles vão queimá-la viva!
Tentei sair correndo dali, Miguel tentou me segurar agarrando-me e falando: -Não! Já deve ser tarde demais, eles falaram que já se foram há algum tempo, não conseguiram impedir, podem encontrá-lo no caminho, podem querer fazer o mesmo com você, comigo. Não vá pelo amor de Deus!
Ao longe já se via a imensa cortina de fumaça no céu e as chamas altas clareando o céu noturno e se espalhando até algumas árvores o que aumentava minha angustia, cai algumas vezes e levantava banhado em lágrimas de desespero. Cheguei correndo e ainda presenciei a multidão agitada gritando e agitando as tochas nas mãos, que haviam destruído a serva do demônio, que a justiça havia sido feita, alguns apenas presenciavam calados.
Todos olhavam-me atônitos, incrivelmente sem qualquer reação.
-Vocês mataram uma pessoa que tanto os ajudou.
Comecei a apontar para cada um deles, lembrando suas doenças e as curas proporcionadas pelos medicamentos de Greta. Todos ouviam calados, parecendo confusos. Eu estava descontrolado, tomado de profunda dor e raiva gritei com todas as forças…
- Malditos!
Tudo me parecia tão injusto e tantas coisas pareciam sem sentido. Mas na outra noite eu saberia os bastidores desta história e aprenderia um pouco mais sobre a Lei da Causa e Efeito, também conhecida como Lei de Ação e Reação ou Carma, o Julgamento da vida que mantém o equilíbrio e a evolução pela aprendizagem empírica.




